Lactase no leite condensado: menos açúcar, mesmo sabor?

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A indústria de laticínios enfrenta hoje uma pressão sem precedentes para reformular produtos, equilibrando a redução de açúcares adicionados com a entrega de experiências sensoriais indulgentes.

Nesse cenário, a lactose deixa de ser vista apenas como um “açúcar problemático” para intolerantes e assume o papel de um ativo estratégico subutilizado.

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Como principal carboidrato do leite — representando cerca de 4,8% da composição no leite de vaca e expressivos 70% a 80% dos sólidos totais do soro — a lactose carrega um potencial de dulçor latente que, quando desbloqueado via biotecnologia, redefine a rentabilidade e o perfil nutricional de produtos como o leite condensado e o doce de leite.

A ciência do dulçor: o que a lactase realmente faz

O segredo para transformar o perfil sensorial dos lácteos reside na aplicação precisa da enzima -galactosidase, amplamente conhecida como lactase. Esta enzima atua como um catalisador biológico altamente específico, realizando a quebra das ligações glicosídicas que mantêm a estrutura do dissacarídeo.
• Mecanismo de Hidrólise: A lactase quebra a molécula de lactose em seus dois componentes fundamentais.
• Resultados Equimolares: O processo gera uma formação equimolar de dois monossacarídeos: glicose e galactose.
• Condições de Preservação: Ao contrário da hidrólise ácida, o processo enzimático ocorre em condições amenas de pH e temperatura, preservando a integridade das proteínas e as propriedades nutricionais nativas do leite.

Matemática sensorial: por que fica mais doce sem jogar mais açúcar

A percepção de dulçor é uma métrica comparativa onde a sacarose (açúcar de cana) é estabelecida como o padrão de referência (valor 100). A eficiência econômica da hidrólise reside no fato de que o fabricante utiliza sólidos lácteos já pagos para gerar dulçor, reduzindo a necessidade de compra de sacarose externa.
A tabela abaixo, fundamentada em dados técnicos de poder edulcorante relativo, ilustra essa vantagem competitiva:

Enquanto a lactose íntegra possui um poder adoçante inexpressivo (aprox. 16), a sua quebra libera a glicose (74) e a galactose (32). A combinação resultante desses monossacarídeos eleva significativamente o dulçor natural do produto. Essa sinergia sensorial permite reduções drásticas na adição de sacarose sem comprometer o paladar, otimizando o custo-benefício da formulação.

Vantagens Tecnológicas no Leite Condensado e Doce de Leite

Para o formulador técnico, a lactase é uma ferramenta multifuncional que resolve desafios críticos de textura e aparência:

  • Fim da Arenosidade: A hidrólise reduz a concentração de lactose íntegra, impedindo a formação de cristais superiores a 10 micrômetros — o limite técnico para a percepção tátil de “areia” no paladar.
  • Reação de Maillard Otimizada: A liberação de açúcares redutores (glicose e galactose) favorece a interação com as proteínas durante o aquecimento, acelerando o desenvolvimento de cor e aromas caramelizados desejáveis.
  • Melhoria de Textura: O ganho em solubilidade dos monossacarídeos reflete-se em um produto final com maior cremosidade e brilho.

O diferencial estratégico: lactase livre de invertase

Esse é o tipo de detalhe que não aparece em powerpoint, mas aparece no tanque.

Para produtos onde sacarose é crítica (leite condensado e muitos doces), faz sentido trabalhar com soluções ultrapurificadas e sem invertase, para garantir que você hidrolise a lactose — e só a lactose. A própria Prozyn descreve uma lactase específica livre de invertase para aplicações com sacarose, justamente para evitar queda de viscosidade e escurecimento excessivo.

Guia rápido de aplicação (o básico bem feito)

Se você quer resultado real (e repetível), trate isso como operação unitária, não como “ingrediente mágico”:

  • Temperatura ótima (lactase neutra): tipicamente 35–45 °C; acima de ~50 °C a enzima perde atividade (desnatura).

  • pH de atuação: faixa ideal ~6,0–7,0 para lactases neutras; queda relevante de atividade em pH mais baixo.

  • Dosagem típica: 500–4000 NLU/L, ajustando por concentração de lactose e tempo disponível.

  • Sequência inteligente: em sistemas concentrados (condensado/doce), é comum recomendar hidrólise antes da evaporação, porque matriz e íons podem interferir na cinética e você ganha previsibilidade.

E um aviso profissional: “funcionou ontem” não é validação. Você precisa de controle analítico e estudo de processo para sustentar claim e consistência.

Rotulagem

Se a estratégia inclui “zero lactose / sem lactose”, o Brasil tem regra clara. A RDC nº 135/2017 define classificação e também exige validação do processo e documentação disponível para fiscalização, além de orientar a declaração de lactose/galactose na tabela nutricional quando aplicável.

E sobre enzimas: no Brasil, enzimas usadas como coadjuvantes de tecnologia entram no guarda-chuva regulatório da Anvisa para aditivos e coadjuvantes, com referência específica para enzimas como coadjuvantes (RDC nº 728/2022). Na prática, isso sustenta o enquadramento tecnológico — e o regulatório decide o que e como declarar no rótulo final, caso a caso.

Conclusão: tradição não é teimosia — é padrão com inteligência

Leite condensado e doce de leite não precisam virar “versões alternativas” para sobreviver. Eles podem continuar clássicos — só que com engenharia melhor.

A lactase, aplicada com critério, permite reduzir sacarose, melhorar textura (menos risco de arenosidade), potencializar dulçor natural e abrir portas para posicionamento funcional. Mas não caia na narrativa simplista: o ganho vem de escolha de enzima (pureza/importantes atividades laterais), ponto de aplicação e controle de processo.

Quem fizer isso direito mantém o sabor que o consumidor ama — e entrega o que o mercado exige.

Foto de mariana.massari

mariana.massari

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