Depois de mais de 20 anos de negociações intermitentes, o Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia foi finalmente concluído em 2024 e entrou na delicada fase de ratificação parlamentar.
Para alguns setores, o discurso é de oportunidade. Para a cadeia de laticínios, o sentimento é outro: alerta máximo.
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Este artigo traduz o impacto técnico dessa abertura sobre dois pontos sensíveis:
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o leite em pó, altamente exposto à concorrência internacional;
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e o mercado de queijos artesanais, onde a disputa deixa de ser preço e passa a ser identidade, origem e proteção jurídica.
Aqui tem dado, estrutura produtiva e consequência.
Raio-X do leite no Brasil: por que competir é tão difícil?
A pecuária leiteira brasileira vive um paradoxo clássico:
produz mais com menos vacas, mas sobre uma base social cada vez mais frágil.
Entre 2015 e 2020, o Brasil perdeu cerca de 30% das vacas ordenhadas, fazendo o rebanho recuar a patamares de 1981 (≈16,2 milhões de cabeças). A produção total cresceu não por expansão, mas por ganhos pontuais de produtividade — concentrados em poucos sistemas tecnificados.
Três fragilidades estruturais explicam o problema:
▪ Perfil social e fragmentação
Cerca de 82% das propriedades leiteiras pertencem à agricultura familiar. Para esse produtor, o leite não é só negócio: é renda mínima, fixação no campo e política social informal.
Competir com um sistema europeu fortemente subsidiado e concentrado não é apenas difícil — é estruturalmente injusto.
▪ Logística e perecibilidade
Leite é volumoso, perecível e caro de movimentar. Não por acaso, apenas 7% do leite cru mundial entra no comércio internacional.
No Brasil, custos logísticos e a dependência de cadeia fria encarecem o produto e limitam qualquer reação rápida do produtor.
▪ Migração do rebanho
O leite está mudando de endereço:
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Sudeste: de 45% para 29% do rebanho (1981–2020)
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Norte: de 3% para 14%
Isso exige infraestrutura de coleta, assistência técnica e indústria onde elas ainda não estão prontas. A conta não fecha rápido.
As barreiras que protegem (e também encarecem)
Hoje, o mercado brasileiro de lácteos opera sob uma proteção robusta — especialmente para leite em pó, item extremamente sensível.
O produto está na lista de exceções da Tarifa Externa Comum (TEC), com alíquota de 28%, contra 16% praticados por outros países do bloco. Somadas as demais incidências, a proteção passa de 45%.
Atualmente, o leite em pó importado chega ao mercado brasileiro sob uma carga tributária total estimada de 45,57%, resultado da combinação do Imposto de Importação de 28% (mantido como exceção à Tarifa Externa Comum), da incidência de Cofins (9,65%), PIS/Pasep (2,1%) e de um ICMS médio de 4,0% nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, que concentram cerca de 81% das operações de importação. Embora esse arcabouço funcione como um mecanismo de proteção ao produtor nacional, ele também atua como um freio estrutural à eficiência do setor, ao desestimular a modernização tecnológica, postergar ganhos de produtividade e encarecer insumos estratégicos, mantendo a cadeia dependente de barreiras em vez de competitividade real.
Simulações de impacto: quem ganha e quem perde
Estudos do Ipea utilizam dois conceitos-chave:
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Efeito Armington: substituição por preço
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Efeito Preferência: escolha por reputação/qualidade percebida (o “selo europeu pesa”)
Com o acordo, entra em cena o pre-listing — sistema que acelera a habilitação sanitária de exportadores europeus. Traduzindo: a concorrência entra rápido.
Cenário mais crítico (remoção total de barreiras)
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Perda de até 71,7 pontos percentuais de participação do leite em pó nacional
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Redução de 15% na demanda por leite cru
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Queda estimada de 475 mil toneladas na produção
E atenção:
A retirada apenas das barreiras burocráticas favorece fortemente Argentina e Uruguai, que poderiam ganhar 49,4 p.p. de mercado.
Ou seja: a ameaça não vem só da Europa — vem de casa também.
Queijos e a guerra silenciosa das Indicações Geográficas
Aqui o jogo muda. Não é volume. É propriedade intelectual.
A União Europeia opera um sistema maduro:
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258 IGs registradas
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199 Denominações de Origem Protegidas (DOP)
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59 Indicações Geográficas Protegidas (IGP)
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O Brasil tem 6 registros. Sim, seis.
Com o acordo, nomes como Parmigiano Reggiano e Roquefort passam a ter exclusividade automática no mercado brasileiro.
Para o produtor artesanal nacional, há um choque de realidade:
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Selo Arte → mercado interno apenas
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Exportação → exige SIF, com custos muitas vezes inviáveis
O que é uma Indicação Geográfica?
1. Identidade e Origem: Garante que o produto é de uma região específica. No Brasil, dividem-se em Denominação de Origem (DO) — influência do meio geográfico (fatores naturais e humanos) — e Indicação de Procedência (IP) — reputação e tradição da localidade.
2. Valor Agregado: O consumidor paga mais pela garantia de um processo único e histórico.
3. Proteção Jurídica: Impede o uso indevido de nomes regionais por produtores de fora da área demarcada.Proteção jurídica contra uso indevido do nome
Sem isso, o queijo brasileiro fica invisível lá fora.
O lado positivo que ninguém gosta de admitir
Abertura comercial dói, mas também expõe atrasos históricos.
A única razão pela qual a produção brasileira não colapsou foi a modernização tecnológica pontual.
Exemplo direto:
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Sistemas de ordenha robotizada custam cerca de R$ 1,3 milhão
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Sofrem 15% a 25% de tributação na importação
Reduzir tarifas de tecnologia baixa custo marginal, aumenta eficiência e reduz dependência de mão de obra escassa.
Além disso, a harmonização de regras de propriedade intelectual cria, finalmente, o terreno jurídico para proteger o terroir brasileiro — se o setor fizer o dever de casa.
Conclusão: eficiência não é opção, é sobrevivência
O Acordo Mercosul–UE não é neutro.
Ele impõe risco real ao produtor de leite em pó e exige política pública imediata para o elo agrícola.
Mas insistir em proteção eterna é ilusão.
O futuro dos laticínios brasileiros passa por:
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acesso real à tecnologia
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desburocratização do SIF
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fortalecimento de IGs nacionais
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transformação do queijo artesanal em produto premium global
A concorrência vai bater à porta.
Cabe a nós decidir se vamos trancar ou aprender a competir.
No Derivando Leite, somos apaixonados por ir além da manchete e entregar a informação técnica que realmente importa — aquela que provoca, questiona e molda a sua opinião com base em dados, não em discurso fácil. Nosso compromisso é traduzir temas complexos do setor lácteo com clareza, responsabilidade e visão de futuro, para que você decida com conhecimento, senso crítico e os pés firmes na realidade da cadeia produtiva.


