A indústria de alimentos entrou numa virada que não tem nada de cosmética — embora a discussão comece justamente na cor. Em 22 de abril de 2025, HHS e FDA anunciaram uma iniciativa nacional para retirar corantes sintéticos à base de petróleo do suprimento alimentar dos EUA, combinando revogação de autorizações antigas com uma transição negociada com a indústria.
Isso importa para laticínios por um motivo simples: criança consome lácteo todo dia (escola, iogurte, bebida láctea, sorvete). E quando os EUA mudam o “sarrafo”, multinacional odeia ter duas fórmulas, dois rótulos e duas cadeias de suprimento. O resultado prático tende a ser um só: reformulação global por inércia industrial, mesmo quando a lei “ainda não chegou” no Brasil.
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E aqui vai a frase que dói, mas é verdadeira: cor não alimenta ninguém. Só que, a partir de agora, ela vai comandar P&D, compras, qualidade e rotulagem como se fosse ingrediente funcional.
Cronograma: o que é banimento e o que é pressão com prazo
O plano não é uma única “canetada” para todos os corantes. Ele mistura banimento formal (com datas) e eliminação negociada (com metas e rastreador público).
Banimento formal (mandatório)
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FD&C Red No. 3 (Vermelho 3): decisão de banimento publicada em 15 de janeiro de 2025, com prazo para alimentos até 15 de janeiro de 2027 (e, para certos usos em medicamentos, cronograma mais longo).
Revogação de autorizações (processo regulatório)
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Orange B: a FDA propôs remover a listagem por entender que o uso foi abandonado há décadas e a regulação ficou obsoleta.
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Citrus Red No. 2: entrou no pacote de “limpeza” regulatória anunciado no plano de 2025.
Eliminação negociada (a que pega no Vermelho 40)
Em abril de 2025, o anúncio falava em trabalhar com a indústria para eliminar seis corantes (incluindo Vermelho 40) “até o fim do ano seguinte”.
Só que, na prática, o próprio rastreador oficial da FDA passou a consolidar compromissos e metas com horizonte até o fim de 2027, além de recortes específicos (como escolas).
Moral da história: o “até 2026” virou um empurrão, e o “até 2027” virou o prazo operacional que aparece nos compromissos monitorados.
Rotulagem: a frase “sem corantes artificiais” virou arma comercial
Em 5 de fevereiro de 2026, a FDA anunciou uma nova abordagem para alegações do tipo “No Artificial Colors / Sem corantes artificiais”, permitindo o uso da claim quando o produto não usa corantes sintéticos à base de petróleo, mesmo que use corantes de fontes naturais.
Isso muda o jogo por dois motivos:
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Remove um freio histórico: antes, o consumidor via “corante” e assumia “artificial”, mesmo quando era beterraba/algas — um contrassenso de comunicação.
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Cria incentivo real de mercado: o rótulo “limpo” deixa de ser prêmio só para quem não adiciona cor nenhuma.
Atenção técnica (e um pouco cética): grupos de defesa do consumidor alertaram que a nova flexibilidade pode confundir, dependendo de como a indústria use a mensagem.
Ou seja: dá para fazer certo — e dá para fazer marketing esperto demais. Quem paga essa conta depois é o SAC e a reputação.
Setor lácteo no epicentro: escolas e sorvetes na linha de frente
A FDA mantém um rastreador público com compromissos de empresas e associações. Nele, o setor lácteo aparece com metas bem objetivas via International Dairy Foods Association (IDFA):
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Leite, queijo e iogurte para escolas (K-12): eliminação de corantes certificados até o início do ano letivo 2026–2027 (ou julho de 2026).
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Sorvetes e sobremesas lácteas congeladas: eliminação de cores artificiais certificadas até 2028.
E não é só “associação falando bonito”: o rastreador lista compromissos de grandes portfólios.
Tradução industrial: o pipeline de reformulação já está rodando. Quem ficar esperando “publicar uma lei no meu país” vai reformular tarde, caro e sob pressão.
Desafios técnicos: corante natural não é figurante — ele reage com o leite
Trocar Vermelho 40 por alternativas naturais parece simples até você lembrar do básico: leite é emulsão + proteínas + sais + (às vezes) fermentação + luz + oxigênio + calor. A cor “bonita no dia 1” pode virar “tom de tristeza” no dia 45.
A FDA vem tentando ampliar a “paleta” de alternativas naturais, incluindo aprovações/expansões recentes (ex.: beterraba e spirulina) e opções já autorizadas como cálcio fosfato, extratos de algas e flor.
Alternativas naturais e onde elas funcionam melhor (visão aplicada ao lácteo)
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Urucum (annatto): ótimo em gordura (queijos, manteiga). Estável, mas pode “marcar” sabor se exagerar.
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Betacaroteno: boa resistência em processos térmicos; útil em queijos e leites saborizados.
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Beterraba (tons vermelhos/rosados): funciona em bebidas e iogurtes, mas sofre com pH baixo, oxidação e escurecimento.
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Fosfato de cálcio: útil para brancura/opacidade (leites e queijos) e costuma ser discreto sensorialmente.
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Spirulina / extratos de algas (azuis/esverdeados): promissores, mas exigem controle de estabilidade e especificações (metais, etc.) quando aplicável.
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Flor de ervilha-borboleta (tons azulados): sensível a variação de pH; precisa de validação em vida de prateleira.
O “elefante regulatório”: GRAS e o fim da autodeclaração sem aviso
Paralelo a isso, o HHS anunciou diretriz para a FDA explorar mudanças no caminho do self-affirmed GRAS, com a intenção de fechar a brecha que permite colocar ingredientes no mercado sem notificação formal.
Importante ser preciso: isso ainda é movimento regulatório, não efeito imediato universal. Mas a direção é clara: mais escrutínio, mais documentação, mais tempo. E isso pode virar gargalo justamente quando P&D precisa correr para substituir corantes.
Estratégia de negócio: “natural look” não é defeito — é posicionamento
Aqui vai uma opinião impopular (e útil): cor natural não precisa imitar neon. Se você tentar forçar, vai pagar com instabilidade, custo e reclamação (“mudou de cor antes da validade”).
O mercado está sendo treinado para associar cor elétrica a “ultraprocessado para criança”. Enquanto isso, tons mais suaves podem virar sinal visual de premium e transparência, desde que o rótulo e a comunicação sejam consistentes com a promessa.
E tem mais: a “colcha de retalhos” regulatória nos EUA já existe. Exemplos práticos:
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Califórnia (AB 418): proibiu, a partir de 1º jan 2027, produtos com Red Dye No. 3 (entre outras substâncias).
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West Virginia (HB 2354): lei estadual voltada a restrições em escolas e itens “não saudáveis”, incluindo vários corantes (com calendário próprio).
A estratégia industrial mais racional, para quem vende em grande escala, é: padronizar pelo requisito mais restritivo e parar de multiplicar SKU por geografia.
Conclusão: quem tratar isso como “tendência” vai perder prazo — e margem
O que está acontecendo não é moda de marketing. É convergência de:
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pressão regulatória (FDA/HHS),
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compromissos setoriais monitorados publicamente,
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e legislação acelerando o movimento.
Para o setor lácteo, a agenda até 2026 (e o “rastro” até 2027/2028) significa: auditar portfólio agora, priorizar produtos infantis e escolares, testar estabilidade em vida de prateleira e travar uma estratégia de rotulagem que não prometa o que a cor natural não consegue entregar.
Faça direito e vira vantagem competitiva. Faça correndo e vira recall, retrabalho e crise de confiança. Tradição sempre valorizou alimento “de verdade”; agora a inovação é provar isso com fórmula e rótulo — sem malabarismo.
O lácteo está mudando.
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