Certificações de lubrificantes: elas realmente garantem segurança?

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1. Introdução: o papel duplo dos lubrificantes na indústria de alimentos

Na indústria de alimentos, a gestão de lubrificantes carrega uma responsabilidade dupla — e inegociável. De um lado, eles são indispensáveis para garantir a disponibilidade e a confiabilidade dos ativos industriais, mantendo misturadores, transportadores, redutores e sistemas de envase operando dentro dos parâmetros esperados. De outro, exatamente o mesmo produto que protege a integridade mecânica pode se transformar em um grave perigo químico ao alimento.

Uma contaminação por lubrificante, mesmo quando acidental, não é um evento trivial. Ela afeta diretamente a segurança do consumidor, compromete a imagem da marca, gera custos elevados com descarte e recall e, em muitos casos, expõe falhas estruturais no sistema de gestão da qualidade. Não é exagero afirmar: lubrificação mal gerenciada não é falha de manutenção — é falha de inocuidade.

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Por isso, na indústria moderna, a engenharia de manutenção precisa estar perfeitamente integrada aos sistemas de segurança de alimentos. Quando isso acontece, a lubrificação deixa de ser apenas uma rotina operacional e passa a ser um pilar de confiança do processo produtivo.

2. O perigo oculto: riscos reais da contaminação por lubrificantes

Quando a manutenção vira um risco à saúde pública

A contaminação de alimentos por lubrificantes não é uma hipótese acadêmica. Ela já aconteceu — e deixou rastros claros de prejuízo econômico, desgaste institucional e risco ao consumidor.

Casos documentados ao longo dos anos reforçam a gravidade do problema:

  • Holanda (1998): iogurtes contaminados por óleo lubrificante apresentaram odor e sabor anormais. Consumidores relataram desconforto gastrointestinal após o consumo.

  • Reino Unido (2000): alimentos infantis da marca Heinz foram contaminados com óleo mineral tóxico devido a vazamento em equipamento industrial. O problema foi identificado por uma consumidora antes de um desfecho mais grave.

  • Austrália (2002): refrigerantes da marca Big Thirst foram recolhidos após contaminação com lubrificante tóxico, com alerta sanitário oficial.

  • Dinamarca (2002): cerca de 1.100 toneladas de leite em pó da ARINCO foram contaminadas com óleo lubrificante contendo partículas metálicas, detectadas por alteração visual do produto.

Todos esses episódios têm um ponto em comum: a falha não foi apenas técnica. Foi sistêmica.

4. Decifrando as certificações: o padrão ouro da lubrificação segura

4.1 Registros NSF: classificando o risco de contato

A NSF International classifica os lubrificantes conforme o risco de contato com o alimento:

  • H1: lubrificantes para locais onde o contato acidental com o alimento é possível. São obrigatórios em pontos críticos expostos.

  • H2: lubrificantes para áreas totalmente isoladas do produto, onde não há possibilidade de contato.

  • H3: óleos solúveis usados para limpeza e proteção temporária, devendo ser completamente removidos antes da operação.

Essa classificação não é opcional. Ela precisa estar documentada, validada e integrada ao plano APPCC.

4.2 ISO 21469: segurança além da formulação

A certificação ISO 21469 eleva o nível de controle. Enquanto o registro NSF avalia a composição do lubrificante, a ISO 21469 avalia todo o processo produtivo do lubrificante.

Na prática, é o equivalente a aplicar um HACCP na fábrica de lubrificantes: controle de matérias-primas, higiene, manuseio, envase, armazenamento e rastreabilidade. É a garantia de que o produto já nasce seguro — e não apenas “aceitável”.

5. Lubrificação integrada ao sistema de gestão da qualidade

Lubrificante certificado não é decisão isolada da manutenção. Ele precisa estar integrado ao APPCC, às BPF e às ferramentas de análise de risco.

Durante a análise de perigos do HACCP, pontos de lubrificação devem ser avaliados como perigos químicos potenciais. Perguntas simples, mas decisivas, precisam ser feitas:
Há risco de gotejamento? Névoa de óleo? Contato acidental do operador?

Ferramentas como Zonas de Criticidade ajudam a traduzir o risco do papel para o chão de fábrica. Equipamentos sobre produto exposto exigem H1. Áreas isoladas permitem H2. Errar nessa classificação é comprometer todo o sistema.

Já a FMEA conecta falhas mecânicas à inocuidade. Um simples retentor desgastado deixa de ser apenas uma falha de manutenção e passa a ser um risco direto ao alimento. Quando manutenção e qualidade falam línguas diferentes, o problema aparece no produto final.

6. Conclusão: lubrificação é credibilidade operacional

A escolha de lubrificantes certificados não é custo — é estratégia. Integrar NSF H1, ISO 21469, APPCC, FMEA e mapeamento de risco transforma a lubrificação em um elemento ativo da segurança de alimentos.

Essa integração protege o consumidor, fortalece a conformidade regulatória e aumenta a confiabilidade dos ativos industriais. Menos paradas, menos desvios, menos recalls. Mais consistência, mais controle, mais credibilidade.

Em um mercado cada vez mais fiscalizado e exigente, lubrificação bem gerida não é detalhe técnico. É vantagem competitiva.

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Foto de Marieli Rosseto

Marieli Rosseto

Doutora e mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos, graduada em Tecnologia de Alimentos e Agronegócio. Especialista em Qualidade, Segurança de Alimentos e Educação Inclusiva, atua como especialista de processos na indústria de soro de leite e professora na área de qualidade no setor lácteo. Na pesquisa, dedica-se ao desenvolvimento de soluções sustentáveis para a indústria de alimentos, como filmes biodegradáveis a partir de resíduos. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8172882358532158

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