Durante décadas, a pecuária evoluiu com base em genética, nutrição e manejo. Cercas? Sempre estiveram lá. Fixas, caras, trabalhosas. Agora, surge uma provocação incômoda (e fascinante): e se a cerca não precisasse mais existir fisicamente?
É isso que a startup neozelandesa Halter está propondo — e entregando — com seu sistema de cercamento virtual por coleiras inteligentes. À frente dessa virada está Craig Piggott, engenheiro mecânico, criado em fazenda leiteira, que decidiu aplicar tecnologia de ponta a um dos setores mais tradicionais do mundo: a pecuária.
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A ideia parece futurista. Mas os números mostram que já virou realidade.
O que é, na prática, o cercamento virtual?
Nada de ficção científica. O sistema da Halter é composto por três pilares:
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Coleiras inteligentes, com GPS, sensores de movimento, áudio, vibração e painel solar
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Aplicativo de gestão, onde o produtor define áreas, rotas e horários
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Infraestrutura de transmissão, com torres que garantem conectividade no campo
Cada vaca passa a ser um “ponto vivo” no mapa. O produtor desenha virtualmente o pasto, toca no celular — e o rebanho se move. Sem porteira, sem arame, sem trator.
Funciona? Funciona. Hoje, a tecnologia já está em uso em mais de 1.300 fazendas, gerenciando cerca de 650 mil animais.
Menos mão de obra, mais eficiência (e menos desgaste)
Aqui não tem romantização. A pecuária moderna sofre com:
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escassez crônica de mão de obra
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jornadas exaustivas
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custos crescentes
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pressão ambiental e regulatória
Segundo Piggott, os usuários economizam entre 20 e 40 horas de trabalho por semana. Isso não é detalhe. É mudança estrutural de gestão.
Mover o rebanho, ajustar o pastejo, proteger áreas sensíveis e reagir ao clima passa a ser decisão estratégica — não tarefa braçal.
Traduzindo: o produtor sai do modo “apagar incêndio” e entra no modo gestor de sistema.
Tecnologia, sim. Mas e o bem-estar animal?
Aqui mora o ceticismo saudável — e necessário.
As coleiras usam:
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sinais sonoros
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vibrações graduais
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pulso elétrico de baixa intensidade, menor que o de cercas convencionais
O treinamento médio leva 2 a 3 dias. Depois disso, o animal responde aos estímulos sonoros e vibratórios.
É legítimo questionar. Mas vale lembrar:
👉 cercas elétricas tradicionais também usam estímulo aversivo, com impacto muitas vezes menos controlado.
A diferença é que, no modelo virtual:
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o estímulo é individualizado
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o histórico de resposta é monitorado
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há ajuste fino por algoritmo
Não é ausência de estímulo. É controle técnico do estímulo.
Do manejo ao dado: quando a vaca vira informação
Aqui está o salto de paradigma.
Além de guiar o rebanho, as coleiras coletam:
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padrões de movimento
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ruminação
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temperatura
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comportamento anormal
Esses dados alimentam algoritmos proprietários capazes de:
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prever doenças
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identificar cio
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antecipar quedas de desempenho
Isso aproxima a pecuária de um conceito já comum na indústria: manutenção preditiva, só que aplicada a seres vivos.
Para quem trabalha com qualidade e processo, o paralelo é óbvio.
Escala, investimento e apetite global
A Halter não é experimento. É negócio grande.
Em 2024, a empresa:
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levantou US$ 100 milhões
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atingiu valuation de US$ 1 bilhão
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tornou-se um dos raros unicórnios da Nova Zelândia
Hoje, o foco de expansão inclui:
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Estados Unidos
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Reino Unido
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Irlanda
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Argentina
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Brasil
E aqui vale um alerta direto:
👉 o Brasil é candidato natural, mas não imediato.
Por quê?
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áreas extensas
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conectividade rural desigual
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custo inicial elevado
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modelo cultural ainda muito baseado em manejo tradicional
A tecnologia chega. A pergunta é quando e como será adaptada.
Visão crítica: promessa ou inevitabilidade?
Vamos ser francos.
Essa tecnologia não é para todo produtor hoje.
Mas também não é moda passageira.
Ela aponta para um futuro onde:
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menos infraestrutura física
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mais inteligência operacional
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decisões baseadas em dados
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menor dependência de mão de obra intensiva
A pecuária sempre evoluiu quando parou de resistir ao que funciona.
Foi assim com:
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ordenha mecânica
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inseminação artificial
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nutrição de precisão
O cercamento virtual parece seguir o mesmo roteiro.
Conclusão
Cercas inteligentes não são sobre tirar o produtor do campo.
São sobre tirar o peso desnecessário das costas de quem produz.
A Halter mostra que tradição e inovação não são opostas — são complementares quando bem feitas.
O futuro da pecuária não será feito apenas de dados, nem apenas de pasto.
Será feito da conversa inteligente entre ambos.
E quem ignorar isso… vai continuar consertando cerca enquanto o mundo avança.
👉 Quer entender como a ciência, a tecnologia e a gestão estão redesenhando a indústria de alimentos?
No Derivando Leite, cada artigo parte do chão de fábrica, do campo e do laboratório para explicar o porquê das coisas, com base técnica, legislação e visão de futuro.
Se você trabalha com laticínios, agroindústria ou qualidade, este conteúdo é para você.
Acompanhe, aprofunde e questione.


