Estratégias para reduzir emissões e aumentar o sequestro de carbono

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A cadeia produtiva do leite possui uma importância econômica e social fundamental para o Brasil. Sendo o terceiro maior produtor mundial, o setor emprega cerca de quatro milhões de pessoas, movimentando a economia em 98% dos municípios brasileiros, majoritariamente em propriedades de pequeno e médio porte. Diante desse cenário, a busca por uma produção mais sustentável não é apenas uma tendência, mas uma necessidade para garantir a resiliência e a competitividade do setor a longo prazo.
O conceito de descarbonização ganha força, impulsionado por compromissos de grandes empresas de laticínios e por parcerias estratégicas, como a colaboração entre a Embrapa e a Nestlé para neutralizar o impacto ambiental. Essas iniciativas visam alinhar a produção às novas exigências de sustentabilidade do mercado e da sociedade.
Este artigo apresenta um conjunto de boas práticas de produção, baseadas em protocolos técnicos consolidados, que representam uma oportunidade única para o produtor. As estratégias aqui detalhadas não apenas reduzem a emissão de gases de efeito estufa (GEE) e aumentam o sequestro de carbono no solo, mas também fortalecem a eficiência e a lucratividade da fazenda, posicionando a pecuária leiteira brasileira como protagonista na construção de um futuro mais sustentável.

1. Entendendo o desafio: as emissões na produção leiteira

Para desenvolver soluções eficazes, é preciso primeiro compreender a origem dos gases de efeito estufa (GEE) associados à pecuária leiteira. Os principais são o metano entérico (CH₄) e os gases emitidos pelo solo, como a amônia (NH₃) e o óxido nitroso (N₂O).

 1.1 O metano entérico (CH₄)

O metano entérico (CH₄) é um dos principais GEE da pecuária. Ele é produzido de forma natural no sistema digestivo dos ruminantes e liberado principalmente pela eructação (arroto). Essa liberação representa uma perda de energia que poderia ser convertida em leite, além de seu impacto negativo no ambiente. No Brasil, 97% das emissões de metano da pecuária provêm dos bovinos, e desse total, 11% são originados pelo rebanho leiteiro.

1.2 As emissões do solo: Amônia (NH₃) e Óxido Nitroso (N₂O)

O manejo do solo e dos dejetos também é uma fonte significativa de emissões. O uso de fertilizantes nitrogenados e a deposição de urina e fezes dos animais nas pastagens podem liberar amônia (NH₃) e óxido nitroso (N₂O) para a atmosfera. A urina, em particular, é a principal fonte de emissão desses dois gases provenientes das excretas animais, representando perdas de nutrientes importantes para a pastagem.

2. Soluções práticas: Protocolos para uma produção mais limpa

A boa notícia é que existem protocolos técnicos e boas práticas capazes de mitigar esses impactos. As soluções podem ser agrupadas em três frentes de atuação: mitigação do metano entérico, redução das emissões do solo e aumento do sequestro de carbono. É crucial entender que essas frentes estão interligadas. Muitas dessas práticas, como integrar leguminosas, entregam um “benefício triplo”: reduzem a necessidade de fertilizantes nitrogenados (Protocolo 2), melhoram a dieta animal para potencialmente diminuir o metano (Protocolo 1) e aumentam o carbono no solo (Protocolo 3).

2.1 Protocolo 1: Mitigando o metano entérico

Felizmente, a ciência nos oferece um leque de ferramentas para reduzir o metano entérico, desde ajustes de manejo fundamentais até inovações nutricionais de ponta. Para entender como isso funciona na prática, as estratégias a seguir são as mais eficazes:
• Índices Zootécnicos Adequados: Em termos simples, trata-se de gerenciar o ciclo de vida do rebanho de forma mais eficiente. Reduzir a idade ao primeiro parto e o intervalo entre partos, por exemplo, diminui o tempo que o animal permanece no sistema antes de se tornar produtivo, reduzindo a emissão total de metano por quilo de leite. Índices inadequados podem aumentar a emissão de CH₄ em até 22,3%. Contudo, é vital lembrar que o mérito genético de um animal só se expressa plenamente com nutrição de qualidade. Uma vaca de alto potencial não alcançará sua eficiência máxima sem o suporte de pastagens bem manejadas e uma dieta balanceada.
• Manejo Adequado do Pastejo: Mas como exatamente a melhoria da pastagem reduz o metano? Pastagens de melhor qualidade, com maior oferta de forragem digestível, resultam em uma fermentação ruminal mais eficiente e, consequentemente, menor emissão. O manejo correto do pastejo pode reduzir a emissão em até 20% (g CH₄/kg de leite produzido, ou gramas de metano por quilo de leite). Isso não apenas corta emissões, mas se traduz diretamente em animais mais saudáveis, mais produtivos e com menores custos de suplementação.
• Suplementação Lipídica: A inclusão de fontes de lipídios na dieta, como óleos de girassol, linhaça ou canola, pode alterar a fermentação no rúmen e inibir os microrganismos produtores de metano. O potencial de redução chega a 22,6% (g/d, ou gramas por dia por animal).
• Uso de Algas Marinhas: A suplementação com a alga marinha da espécie Asparagopsis taxiformis tem se mostrado uma das estratégias mais potentes. A composição química varia muito entre as algas, mas estudos com esta espécie específica apontam um potencial de redução de até 67,2% (g/d) na emissão de metano.
• Outras Estratégias Nutricionais: Além das práticas fundamentais, existem aditivos e compostos promissores, que vão desde os mais estabelecidos até os de vanguarda, que podem manipular a fermentação ruminal e reduzir o metano:
• Receptores de elétrons alternativos: até 54% (g/kg GMD, ou gramas de metano por quilo de ganho de peso médio diário) Compostos secundários de plantas: até 53% (g/kg GMD), como os taninos encontrados em leguminosas Inibidores da metanogênese (ex: 3-NOP): até 15,8% (g/d) Óleos essenciais: até 8,8% (g/kg CMS, ou gramas de metano por quilo de matéria seca ingerida) Ionóforos: até 7% (g/d) Leveduras: até 4% (g/d)

2.2. Protocolo 2: Reduzindo emissões de amônia e óxido nitroso no solo

Diminuir as perdas de nitrogênio para a atmosfera não só reduz as emissões de GEE, mas também melhora a eficiência do uso de nutrientes na propriedade, o que significa economia com fertilizantes.
1. Uso de Leguminosas: Consorciar gramíneas com leguminosas forrageiras, como amendoim-forrageiro ou estilosantes, fixa o nitrogênio atmosférico diretamente no solo. Isso reduz ou elimina a necessidade de fertilizantes nitrogenados sintéticos, evitando a emissão de 5,42 kg de CO₂ para cada 1 kg de fertilizante que deixa de ser produzido.
2. Manejo do Pastejo para Distribuição de Dejetos: A adoção de sistemas de pastejo rotacionado com altas densidades de lotação por curtos períodos promove uma distribuição mais uniforme das fezes e da urina. Isso evita a concentração de nitrogênio em pequenas áreas, diminuindo as perdas gasosas e melhorando a ciclagem de nutrientes em toda a pastagem.
3. Fertilizantes de Eficiência Aumentada e Fontes Alternativas: O uso de fertilizantes que liberam nitrogênio de forma mais lenta e controlada, como os que contêm inibidores de urease ou são revestidos por polímeros, pode reduzir a volatilização de amônia. Fontes alternativas à ureia, como o sulfato de amônio, também apresentam menores perdas.
4. Práticas de Aplicação de Ureia: Quando a ureia for a fonte escolhida, é possível minimizar as perdas de amônia. Práticas como incorporar o fertilizante no solo ou aplicar irrigação (acima de 3,2 mm) logo após a adubação são altamente eficazes para diminuir a volatilização.

3.3. Protocolo 3: Transformando o Solo em um Sumidouro de Carbono

O solo, quando bem manejado, funciona como uma verdadeira poupança de carbono, retirando o CO₂ da atmosfera e “investindo-o” em matéria orgânica. Esse processo não só combate as mudanças climáticas, mas também aumenta a fertilidade e a resiliência da propriedade a secas e chuvas intensas.
• Sistemas Integrados (ILP, IPF e ILPF): A integração lavoura-pecuária-floresta é uma das estratégias mais eficientes. A diversidade de plantas e o sistema radicular vigoroso das forrageiras aumentam significativamente o acúmulo de matéria orgânica. A taxa de sequestro de carbono no solo pode variar de 0,82 a 2,55 Mg C ha⁻¹ ano⁻¹, enquanto no tronco das árvores (fuste), o sequestro pode chegar a 10,25 Mg C ha⁻¹ ano⁻¹.
• Recuperação de Pastagens Degradadas: Esta é uma das práticas com maior potencial de sequestro de carbono. Uma pastagem degradada pode ser uma fonte de emissão de carbono (cerca de -0,25 Mg C ha⁻¹ ano⁻¹), mas, ao ser recuperada e bem manejada, transforma-se em um dreno de carbono, podendo sequestrar de 0,28 a 1,01 Mg C ha⁻¹ ano⁻¹.
• Plantio Direto (PD): O plantio realizado sobre a palhada da cultura anterior, sem o revolvimento do solo, protege a matéria orgânica da decomposição e aumenta gradualmente os estoques de carbono. O potencial de sequestro varia de 0,185 a 1,15 Mg C ha⁻¹ ano⁻¹.
• Adubação Verde (Uso de Leguminosas): Além de fixarem nitrogênio, as leguminosas, quando usadas em consórcio ou rotação, contribuem para o acúmulo de carbono no solo, com uma taxa estimada de 0,61 a 1,53 Mg C ha⁻¹ ano⁻¹.

Conclusão: Produzir leite e cuidar do planeta

A sustentabilidade na pecuária leiteira deixou de ser um ideal distante para se tornar uma estratégia central para o sucesso do negócio. As práticas apresentadas neste guia demonstram que é perfeitamente possível aliar alta produtividade com responsabilidade ambiental. A adoção dessas tecnologias não é um custo, mas um investimento na resiliência, na eficiência e na rentabilidade da propriedade.
Ao melhorar a saúde do solo, otimizar a nutrição do rebanho e aumentar a eficiência geral do sistema, o produtor de leite fortalece sua própria operação contra as incertezas climáticas e econômicas. Mais do que nunca, o produtor rural assume um papel de protagonismo, posicionando-se não apenas como um fornecedor de alimentos de alta qualidade, mas como um agente essencial na construção de um futuro próspero e na conservação dos recursos naturais para as próximas gerações. Produzir de forma sustentável é o caminho para uma pecuária mais forte, mais lucrativa e mais respeitada.
Produzir leite hoje exige mais do que tradição — exige processo, ciência e visão de futuro.
No Derivando Leite, sustentabilidade não é discurso bonito: é dado, é manejo, é decisão técnica bem tomada.

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