Inovação no campo: Paraná cria o 1º leite de coelha do Brasil

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A cunicultura brasileira sempre conviveu com um paradoxo silencioso: avanços genéticos relevantes de um lado, perdas estruturais de outro. Produzimos mais filhotes por ninhada, mas seguimos presos a um limite biológico que não negocia com planilhas, metas ou boas intenções. Ciência, nesse cenário, não é luxo. É necessidade.

É justamente nesse ponto que o Paraná entra em cena. Pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM) estão na fase final de desenvolvimento do primeiro leite artificial de coelha do Brasil — uma inovação com potencial direto de reduzir mortalidade de láparos, aumentar eficiência produtiva e elevar o padrão de bem-estar animal da cunicultura nacional.

🔒 Este conteúdo continua abaixo.

Trata-se de um divisor de águas para um setor pequeno em escala, mas grande em complexidade técnica.

1. O desafio silencioso da cunicultura: quando genética encontra o limite biológico

Em condições normais de criação, a taxa de mortalidade de láparos pode alcançar 20 a 25% entre 30 e 40 dias de vida. Não se trata de falha de manejo isolada. O problema está no desequilíbrio criado pelo próprio melhoramento genético.

Hoje, ninhadas com 12, 14 ou até 16 filhotes são comuns. O detalhe incômodo? A fêmea continua tendo oito tetas. Biologia clássica.

O resultado é previsível: competição por leite, subnutrição dos mais fracos e perdas inevitáveis. Como resume Leandro Castilha, coordenador da cunicultura da UEM:

“Temos ninhadas grandes demais para a capacidade fisiológica da fêmea. A limitação é física. A solução passa por suplementação, como já ocorre em outras espécies.”

Dito de forma direta: o sistema pede reforço nutricional. E pede com urgência.

2. A virada científica: decifrando a ordenha de coelhas

Antes de pensar em sucedâneo, era preciso resolver o básico — como coletar leite de coelha para análise. Aqui está o verdadeiro salto tecnológico do projeto.

Ao contrário de vacas, cabras ou ovelhas, a ejeção do leite em coelhas depende exclusivamente do estímulo do filhote. Sem ele, não há descida do leite. Ordenha convencional simplesmente não funciona.

2.1 Um protocolo inédito no Brasil

Após quase um ano de tentativas, ajustes e validações, a equipe da UEM desenvolveu o primeiro protocolo funcional de ordenha de coelhas no país, combinando três pilares técnicos:

  • Indução hormonal controlada, com dosagens cuidadosamente adaptadas da bovinocultura para a fisiologia do coelho — ciência aplicada, não improviso.

  • Estímulo natural, com a presença do filhote para ativar o reflexo de ejeção láctea.

  • Sucção mecânica imediata, garantindo coleta eficiente no curto intervalo em que o leite está disponível.

Silvio Leite, professor de Zootecnia e autor do protocolo, é direto:

“Sem o filhote, o leite não sai. O desafio não era só obter a primeira gota, mas volume suficiente para análise confiável.”

Aqui não houve atalho. Houve método.

2.2 Da análise laboratorial ao leite artificial

Com o leite coletado, a equipe partiu para o que realmente interessa à indústria: caracterização completa da composição — lactose, perfil de aminoácidos, ácidos graxos, vitaminas e outros constituintes críticos.

Esses dados fundamentam a formulação de um sucedâneo lácteo com perfil nutricional praticamente idêntico ao leite materno. Existem produtos semelhantes no exterior, mas esta é a primeira tecnologia desenvolvida no Brasil, com potencial real de produção local e patente.

Tradição científica com visão de futuro. Como deve ser.

3. Impactos diretos na cadeia produtiva

Eficiência e rentabilidade

Menos mortalidade significa mais filhotes desmamados por ninhada. Não é discurso bonito — é ganho direto de produtividade.

Bem-estar animal

Garantir nutrição adequada nos primeiros dias de vida não é opcional. É base ética da zootecnia moderna. E aqui a ciência entrega solução concreta, não promessa vaga.

“O bem-estar animal começa pelo acesso ao leite em quantidade e qualidade”, reforça Castilha.

Fortalecimento do setor

Com maior sobrevivência, cresce a oferta de animais tanto para produção quanto para pesquisa biomédica. Os coelhos da UEM são utilizados na produção de soros, vacinas veterinárias e pesquisas avançadas. A tecnologia fortalece toda a cadeia.

4. Paraná como polo estratégico da cunicultura

O protagonismo não é acaso. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Paraná possui o terceiro maior plantel de coelhos do país, com cerca de 33 mil animais.

A Região Sul concentra historicamente mais de 60% do rebanho nacional, o que torna a inovação ainda mais estratégica. Soma-se a isso o crescente interesse pela carne de coelho — baixo colesterol, bom perfil lipídico e alto valor nutricional.

Tecnologia certa, no lugar certo.

5. Próximos passos: da bancada ao ninho

A pesquisa entra agora na fase decisiva:
✔ formulação final
✔ produção experimental do leite em pó
✔ testes de aceitação com os láparos

O próximo desafio é de engenharia e manejo: como alimentar ninhadas inteiras de forma eficiente. A resposta já está em desenvolvimento — uma “ama de leite artificial”, capaz de fornecer o sucedâneo diretamente no ninho.

Se funcionar em escala, o Brasil não terá apenas um leite artificial de coelha. Terá um sistema completo. E isso muda o jogo.

Conclusão

A inovação da UEM mostra algo que a indústria já aprendeu há décadas: processo bom nasce de ciência bem feita. Não é moda, não é improviso, não é discurso vazio. É método, validação e aplicação prática.

O Paraná não apenas lidera. Mostra o caminho.

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Foto de Marcos Nazareth

Marcos Nazareth

Mestrando, Professor de química pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e técnico em Laticínios pelo Instituto Laticínios Cândido Tostes. Entusiasta da internet e informação. Gerente Industrial | Empreendedor | Investidor

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