A pegada hídrica do leite muda com as práticas e o clima?

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A água sempre foi um insumo silencioso da produção leiteira. Enquanto o consumidor enxerga apenas o copo de leite, o produtor sabe que cada litro carrega consigo uma história de chuva que alimentou a lavoura, de água bombeada para limpeza da sala de ordenha e de efluentes que precisam ser tratados. No debate sobre sustentabilidade, a pegada hídrica passou a ser uma ferramenta essencial para entender o real peso desse recurso em cada litro de leite produzido.

Um estudo recente conduzido por Palhares et al. (2025) avaliou 67 fazendas leiteiras no Rio Grande do Sul, considerando diferentes práticas de manejo e cenários de mudanças climáticas. A pesquisa mostrou que o sistema de produção (a pasto, semiconfinado ou confinado) não foi determinante para a pegada hídrica. O que realmente fez diferença foram as práticas adotadas dentro da fazenda e os efeitos projetados do aquecimento global.

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O que influencia a pegada hídrica?

A análise dividiu o consumo de água em três componentes clássicos: verde (chuvas utilizadas pelas culturas), azul (água captada de rios, poços ou reservatórios) e cinza (água necessária para diluir poluentes até limites aceitáveis).

Os cenários mais eficientes foram aqueles que incluíram:

  • aumento de 25% na produtividade de milho e soja (reduzindo a pegada verde);

  • redução do consumo de água na lavagem da sala de ordenha, combinada ao ganho de 1 litro de leite por vaca/dia (otimizando a pegada azul);

  • tratamento dos efluentes da sala de ordenha (impactando diretamente a pegada cinza).

Em contrapartida, a menor eficiência hídrica apareceu em cenários de queda na produtividade agrícola, não tratamento de efluentes e elevação da temperatura mínima diária entre 1,5 °C e 2,5 °C — um reflexo direto das mudanças climáticas.

Mudanças climáticas: a variável invisível

As mudanças no regime de chuvas e a elevação das temperaturas previstas para o Brasil aumentam a pressão sobre a gestão hídrica. O PNUMA (2024) já alertava que a variabilidade hídrica será um dos maiores riscos para a agricultura nos próximos anos. No leite, isso significa que a eficiência hídrica não depende apenas do produtor, mas de um contexto climático que exige adaptação constante.

Os resultados de Palhares et al. (2025) confirmam que cenários de aquecimento global ampliam as pegadas verde e azul, colocando em evidência a necessidade de inovação agrícola, como a adoção de cultivares mais resistentes à seca, sistemas de irrigação de precisão e estratégias de bem-estar animal que reduzam o estresse térmico das vacas.

O que pode ser feito na prática?

A indústria e os produtores podem agir em três frentes principais:

  1. Na alimentação: investir em cultivares de maior produtividade e eficiência no uso da água, reduzindo a pegada verde.

  2. No uso direto da água: monitorar o consumo em ordenhas, bebedouros e resfriadores, adotando tecnologias de reuso e higienização eficiente.

  3. No tratamento de efluentes: implementar sistemas eficazes de separação de sólidos, lagoas de estabilização ou biodigestores, reduzindo a pegada cinza e ao mesmo tempo gerando energia renovável.

Por que isso importa?

A pegada hídrica média encontrada no estudo foi de 704 litros de água por quilo de leite corrigido para gordura e proteína (FPCM), valor próximo ao registrado em estudos internacionais. Essa equivalência ajuda a dimensionar o impacto: em um tanque de 10 mil litros de leite, estamos falando em mais de 7 milhões de litros de água. Com a demanda global por alimentos em crescimento e os efeitos das mudanças climáticas se intensificando, cada gota economizada hoje pode significar resiliência no futuro.

Conclusão

A pegada hídrica do leite não é um número fixo, mas um reflexo das decisões cotidianas na fazenda e das condições climáticas em transformação. As práticas de manejo têm potencial para reduzir significativamente esse indicador, mas ignorar os cenários de aquecimento global é comprometer o futuro da atividade. O estudo de Palhares et al. (2025) mostra que o Brasil está na linha de frente desse desafio, com oportunidades concretas de transformar a gestão da água em estratégia de sustentabilidade e competitividade para a cadeia leiteira.

Sique por dentro de conteúdos relevantes para a cadeia leiteira qui em nosso site: Derivando Leite.

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mariana.massari

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